domingo, 1 de julho de 2012

TERROR, UMA REFLEXÃO DOLOROSA

Um texto de ficção que traz uma reflexão sobre a cara do terror nos tempos atuais.


TERROR, UMA REFLEXÃO DOLOROSA
Personagens:
Gabriela, jovem bela e amedrontada (eu? você?)
Vladimir, um monstro que existe na escuridão da nossa mente (um vampiro que suga nossa paz?)
Helena, mãe (sociedade cega?)

Cenário: Um lugar alto em São Paulo, desconhecido, frio (nossa alma urbana?)


"Assassinatos, violência, abandono, solidão...Os monstros, os vampiros, os fantasmas estão soltos na cidade..."

Música de suspense ou terror. Fumaça no palco. Penumbra. 

Uma moça dorme no centro do palco, com um vestido leve, romântico, com muito tecido de cor clara. 

De repente acorda assustada. Levanta. Olha para todos os lados. Parece sentir frio. 

Gabriela – Meu Deus! Onde eu estou? Como eu vim parar aqui? 

Silêncio. De repente surge um rapaz com roupas pretas e uma longa capa. 

Vladimir – Calma. Você saberá de tudo em breve. 

Gabriela (assustada) – Quem é você? Que lugar é esse? 

Vladimir – Olhe bem à sua volta, olhe a paisagem... Não reconhece? 

Gabriela (observa) – Eu... eu estou reconhecendo... É São Paulo. 

Vladimir – Estamos na parte mais alta de um dos mais altos prédios do centro de São Paulo. 

Gabriela – Mas como eu vim parar aqui... Isso é um sonho... um pesadelo?

Vladimir – Talvez a vida em São Paulo seja sempre um sonho ou um pesadelo, quem sabe?

Gabriela – Eu quero sair daqui... esse lugar me dá medo! 

Vladimir – São Paulo te dá medo? 

Gabriela – Às vezes sim. Toda essa violência, essa correria, a cidade às vezes é tão fria... São tantas pessoas abandonadas pelas ruas, periferias esquecidas... 

Vladimir – Pessoas esquecidas podem ser perigosas. 

Gabriela – É, eu sei. Vladimir – Você se sente “esquecida”, Gabriela? 

Gabriela senta-se entristecida.

Gabriela – Às vezes me sinto só. Mesmo no meio da multidão na Avenida Paulista, nos vagões de metrô... eu me sinto tão só... 

Pausa silenciosa. Vladimir fica de pé, olhar perdido no horizonte. 

Vladimir – Ah essa cidade: MILHARES DE PESSOAS SOLITÁRIAS, CADA UMA DELAS VIVENDO SOZINHAS NO SEU PRÓPRIO MUNDO, DENTRO DO MUNDO TODAS. 

Gabriela (levantando-se) – Mas quem é você? E quando você vai me dizer quando eu poderei ir embora desse lugar...? 

Vladimir – Talvez você possa ir daqui há pouco. Talvez nunca mais. 

Gabriela (com medo) – Por favor, me diga: você é um anjo? Um monstro? Quem é você? Como é seu nome? 

Vladimir – Meu nome é Vladimir, pode me chamar de Vlad. Não sou um anjo nem um monstro. 

Gabriela – Vlad... Esse nome não me é estranho... Você pretende me fazer algum mal? 

Vladimir – Nem sempre o que parece mal é mal. Nem sempre o que parece bom é bom. O bem e o mal, o bom e o mau às vezes nos confundem você não acha? 

Gabriela – É... às vezes isso acontece sim. Eu mesma já me enganei muitas vezes... 

Vladimir – Quer me contar uma dessas experiências? 

Gabriela – Não sei se vale a pena lembrar... 

Pausa. Vladimir olha fixamente para ela. Ela não resiste e decide falar. 

Gabriela – Bem, eu já fui muito maltratada... Por uma pessoa que eu pensei que me amasse... 

Vladimir – Fala de um homem? Um namorado? 

Gabriela – Um homem sim. Namorado não... É muito triste isso tudo. Acho melhor não falar mais sobre isso. É melhor esquecer... 

Vladimir – Nem sempre podemos ou devemos esquecer o que nos atormenta. Às vezes é preciso lembrar, tratar as feridas... para cicatrizar. 

Gabriela – Por favor eu posso ir embora? 

Vladimir – Ainda não. Não enquanto você estiver tentando fugir. 

Gabriela – Mas eu não estou tentando fugir de você... 

Vladimir – Eu digo que você está tentando fugir de você mesma... De seus pensamentos, seus fantasmas... Por que não continua contando sobre sua dor? Quem te fez tanto mal? 

Gabriela – Ele deveria me proteger... me amar... Eu era uma criança, confiava nele... Precisava de proteção de carinho... E ele... ele... Ele é meu pai. Eu não posso mais falar sobre isso! 

Vladimir – Eu já ouvi e entendi o suficiente. Talvez seja hora de acordar. 

Gabriela – Acordar? Isso tudo é um pesadelo? 

Vladimir – Para você sim. Mas, infelizmente para muitos, para milhares essa situação é bem real. E nenhum filme de terror pode ser pior do que esse abuso de crianças que ocorre nessa cidade, nesse país... Assassinatos, violência, abandono, solidão... Os monstros, os vampiros, os fantasmas estão soltos na cidade... Bem, tenho que ir embora. E você também.

Gabriela - Por favor, eu posso ir com você? 

Vladimir - Infelizmente não. Você precisa voltar e enfrentar sua realidade. 

Vladimir sai. 

Gabriela fica só e muito triste. Deita-se novamente. A luz acende. 

Helena – Gabriela! Filha! Acorda! Eu vou sair, mas seu pai vai ficar em casa! Ele cuida de você direitinho! Seja boazinha com ele. Eu já volto! 

Sons de trovões. Luzes de raios. Música de terror. FIM. 


EDSON ARAÚJO LIMA - 01.07.2012



Um comentário:

Carol Brasil disse...

MUITO BOM O TEXTO, muito real...
ótima reflexão !!!
Parabéns Edson por tanto talento.
Beijos